Estava quase na hora de terminarem as apostas, mas por algum motivo, talvez por lhe terem dito que era o maior prémio de sempre, Carolina sentia que tinha que tentar a sua sorte. O que seriam uns euros a menos no seu orçamento se lhe saísse o prémio, pensou. Mal sabia ela o preço que iria pagar.
Ainda estava a uns mil metros, já avistava a fila enorme que se concentrava junto ao café onde se faziam as apostas. Toda a gente teve a mesma ideia, disse para consigo. Ao ver que continuavam a chegar pessoas decidiu correr, na esperança que a sua vez chegasse antes da hora de encerramento do terminal.
Como um azar nunca vem só, estava mesmo a chegar e a começar a reduzir a velocidade quando a fivela de uma das suas sandálias se rebenta, fazendo com que Carolina se desequilibre e esbarre contra a última pessoa da fila. Por sorte era um cavalheiro, pensou, que ao sentir a sua aflição lhe deitou as mãos evitando que ela ficasse esticada no chão.
Embora na sua cabeça passassem todas as asneiras conhecidas ao cimo da terra, a sua boca apenas conseguiu pronunciar:
- Desculpe e obrigada. – Disse sem levantar a cabeça os olhos do chão, coberta de vergonha.
O senhor respondeu-lhe amavelmente:
- Não faz mal, são coisas que acontecem, Carolina.
Na sua cabeça suou o alarme. Carolina? Ele dissera o seu nome. Foi aí que levantou os olhos e o viu.
- Gustavo? – Perguntou com a maior das admirações.
- Sim. Como estás?
Como estava? Boa questão para se fazer ao fim de quinze anos sem se verem. Como estava? Embaraçada, envergonhada, com uma sandália na mão a ver o resultado do seu incidente e com o pé descalço na calçada. Estava baralhada com o facto de ele estar ali naquele momento. Parecia que tinha parado no tempo. Lá se lembrou da sandália que tinha na mão e tentou calçá-la da melhor forma possível, pedindo que desse para chegar a casa sem mais contratempos.
Foi então que lhe conseguiu responder.
- Estou bem. E tu?
- Também. – Disse ele – Que é feito de ti?
Outra pergunta típica que é sempre feita quando se está muitos anos sem ver alguém, possivelmente viria de seguida a questão “Casaste? Tiveste filhos?”. E o que ia ela responder? Que trabalhava horas e horas, fosse no trabalho ou em casa e até mesmo no autocarro, de forma a manter a cabeça ocupada para ignorar o facto de a vida ter uma parte amorosa necessária para se considerar completa?
Então respondeu com uma frase não menos típica.
- Trabalho e mais trabalho. Sabes como é, uma pessoa tem que trabalhar.
Ele assentiu.
E agora? Era suposto retribuir o interesse e perguntar-lhe o mesmo ou deixar o assunto por ali? Estaria interessada em saber mais alguma coisa do homem que tinha sido seu namorado quinze anos antes? As palavras saíram sem Carolina dar conta:
- E tu o que fazes? Como te têm corrido as coisas?
Seria possível ler nas entrelinhas e entender o que ela queria realmente saber? Embora ela tivesse dúvidas se iria gostar de ouvir a resposta.
- Também tenho trabalhado, só vivo para isso. – Respondeu.
Isso seria um sinal de estar ainda solteiro? Talvez fosse apenas mais uma resposta usual.
Com o avançar da fila foi também passando o tempo, e chegou a hora sem que fizessem as respectivas apostas.
- Terá que ficar para a próxima. – Concluiu Carolina.
- Podemos sempre ir beber café com o dinheiro que se poupou, que achas? – Convidou Gustavo. – Podíamos pôr a conversa em dia.
Como se fosse possível colocar os últimos quinze anos de vida numa conversa de café, pensou ela. Sentiu-se tentada a dizer que sim, algo nela queria mesmo saber mais sobre a vida dele, mas recusou.
- Agradeço, mas tenho mesmo que ir. Talvez noutro dia. – E dizendo isto despediu-se. – Fica bem, gostei de te ver.
- Igualmente. – Retorquiu Gustavo.
Talvez noutro dia? Jamais haveria a probabilidade de existir outro dia onde encontrasse tal ser na sua vida. Onde estava ela com a cabeça para dizer aquilo?
Acabou por ir para casa, tentando dar pouca importância ao sucedido. Ao fim do dia, já deitada, deu então consigo a pensar em Gustavo. E todas as questões surgiram na sua mente.
Estaria sozinho ou teria alguém na sua vida? E caso estivesse sozinho seria por opção, viveria mesmo para o trabalho? E o que teria acontecido entre ele e a Raquel? Soubera que estavam juntos pouco tempo depois de a sua relação com Gustavo ter chegado ao fim, perguntando-se muitas vezes se Raquel teria sido uma das causas desse fim.
Apesar de todas essas questões antigas, surgia agora uma que pairava sobre todas as outras.
- Porquê ele, ali naquele sítio, neste momento da minha vida? – Perguntou a si mesma em voz alta.
Acabou por adormecer sem dar conta do tempo que tinha estado a pensar no que tinha acontecido.
Ao acordar no dia seguinte, ligou a TV que a saudou com a notícia de que o tal prémio não havia saído e que na próxima semana seria ainda maior. Sentiu-se contente, ao menos não tinha perdido por completo a sua hipótese de ganhar o prémio. Na semana seguinte lá estaria, desta vez mais cedo, para tentar a sua sorte.
Ainda estava a uns mil metros, já avistava a fila enorme que se concentrava junto ao café onde se faziam as apostas. Toda a gente teve a mesma ideia, disse para consigo. Ao ver que continuavam a chegar pessoas decidiu correr, na esperança que a sua vez chegasse antes da hora de encerramento do terminal.
Como um azar nunca vem só, estava mesmo a chegar e a começar a reduzir a velocidade quando a fivela de uma das suas sandálias se rebenta, fazendo com que Carolina se desequilibre e esbarre contra a última pessoa da fila. Por sorte era um cavalheiro, pensou, que ao sentir a sua aflição lhe deitou as mãos evitando que ela ficasse esticada no chão.
Embora na sua cabeça passassem todas as asneiras conhecidas ao cimo da terra, a sua boca apenas conseguiu pronunciar:
- Desculpe e obrigada. – Disse sem levantar a cabeça os olhos do chão, coberta de vergonha.
O senhor respondeu-lhe amavelmente:
- Não faz mal, são coisas que acontecem, Carolina.
Na sua cabeça suou o alarme. Carolina? Ele dissera o seu nome. Foi aí que levantou os olhos e o viu.
- Gustavo? – Perguntou com a maior das admirações.
- Sim. Como estás?
Como estava? Boa questão para se fazer ao fim de quinze anos sem se verem. Como estava? Embaraçada, envergonhada, com uma sandália na mão a ver o resultado do seu incidente e com o pé descalço na calçada. Estava baralhada com o facto de ele estar ali naquele momento. Parecia que tinha parado no tempo. Lá se lembrou da sandália que tinha na mão e tentou calçá-la da melhor forma possível, pedindo que desse para chegar a casa sem mais contratempos.
Foi então que lhe conseguiu responder.
- Estou bem. E tu?
- Também. – Disse ele – Que é feito de ti?
Outra pergunta típica que é sempre feita quando se está muitos anos sem ver alguém, possivelmente viria de seguida a questão “Casaste? Tiveste filhos?”. E o que ia ela responder? Que trabalhava horas e horas, fosse no trabalho ou em casa e até mesmo no autocarro, de forma a manter a cabeça ocupada para ignorar o facto de a vida ter uma parte amorosa necessária para se considerar completa?
Então respondeu com uma frase não menos típica.
- Trabalho e mais trabalho. Sabes como é, uma pessoa tem que trabalhar.
Ele assentiu.
E agora? Era suposto retribuir o interesse e perguntar-lhe o mesmo ou deixar o assunto por ali? Estaria interessada em saber mais alguma coisa do homem que tinha sido seu namorado quinze anos antes? As palavras saíram sem Carolina dar conta:
- E tu o que fazes? Como te têm corrido as coisas?
Seria possível ler nas entrelinhas e entender o que ela queria realmente saber? Embora ela tivesse dúvidas se iria gostar de ouvir a resposta.
- Também tenho trabalhado, só vivo para isso. – Respondeu.
Isso seria um sinal de estar ainda solteiro? Talvez fosse apenas mais uma resposta usual.
Com o avançar da fila foi também passando o tempo, e chegou a hora sem que fizessem as respectivas apostas.
- Terá que ficar para a próxima. – Concluiu Carolina.
- Podemos sempre ir beber café com o dinheiro que se poupou, que achas? – Convidou Gustavo. – Podíamos pôr a conversa em dia.
Como se fosse possível colocar os últimos quinze anos de vida numa conversa de café, pensou ela. Sentiu-se tentada a dizer que sim, algo nela queria mesmo saber mais sobre a vida dele, mas recusou.
- Agradeço, mas tenho mesmo que ir. Talvez noutro dia. – E dizendo isto despediu-se. – Fica bem, gostei de te ver.
- Igualmente. – Retorquiu Gustavo.
Talvez noutro dia? Jamais haveria a probabilidade de existir outro dia onde encontrasse tal ser na sua vida. Onde estava ela com a cabeça para dizer aquilo?
Acabou por ir para casa, tentando dar pouca importância ao sucedido. Ao fim do dia, já deitada, deu então consigo a pensar em Gustavo. E todas as questões surgiram na sua mente.
Estaria sozinho ou teria alguém na sua vida? E caso estivesse sozinho seria por opção, viveria mesmo para o trabalho? E o que teria acontecido entre ele e a Raquel? Soubera que estavam juntos pouco tempo depois de a sua relação com Gustavo ter chegado ao fim, perguntando-se muitas vezes se Raquel teria sido uma das causas desse fim.
Apesar de todas essas questões antigas, surgia agora uma que pairava sobre todas as outras.
- Porquê ele, ali naquele sítio, neste momento da minha vida? – Perguntou a si mesma em voz alta.
Acabou por adormecer sem dar conta do tempo que tinha estado a pensar no que tinha acontecido.
Ao acordar no dia seguinte, ligou a TV que a saudou com a notícia de que o tal prémio não havia saído e que na próxima semana seria ainda maior. Sentiu-se contente, ao menos não tinha perdido por completo a sua hipótese de ganhar o prémio. Na semana seguinte lá estaria, desta vez mais cedo, para tentar a sua sorte.



